domingo, 20 de dezembro de 2009

Ricardo Rodrigues, o rosto do PS para o combate à corrupção

Ricardo Rodrigues é o deputado a quem os socialistas deram a pasta do combate à corrupção nos debates parlamentares.
Eis a sua história, para se avaliar o empenho do PS nesta luta.

Em 2000, Ricardo Rodrigues foi constituído arguido num processo sobre crimes de associação criminosa, infidelidade, burla qualificada e falsificação de documentos. Nesse ano, foram julgadas nove pessoas.

O processo relativo a Rodrigues foi arquivado. No despacho do MP podia ler-se que, apesar das "dúvidas" sobre a sua contribuição "nas actividades subsequentes à burla levadas a cabo pelos principais arguidos", o advogado alegou "desconhecimento da actividade delituosa".

Em 2005 houve um artigo de opinião no Açoriano Oriental. Nesse texto, o jornalista manifestava a sua perplexidade pelo facto de o ex-secretário Regional da Agricultura e Pescas encabeçar a lista de candidatos do PS pelo arquipélago.
Considerando que o Parlamento iria ter um deputado que "não deixou nunca de ser um "caso", escrevia: "Rodrigues esteve envolvido com um gang internacional na qualidade de advogado, sócio e procurador de uma sociedade offshore registada algures num paraíso fiscal; advogado/sócio de uma mulher [Débora Raposo] que está foragida no estrangeiro, acusada de "ter dado o golpe" de centenas de milhar de contos à agência da CGD de Vila Franca do Campo". Por tudo isto, "não deveria nunca ter enveredado pela actividade política".

Ricardo Rodrigues processou o jornalista.
Perdeu.
O juiz de instrução concluiu que a acusação de que Rodrigues se envolvera "com um gang internacional" tinha sustentação: "Ao mesmo tempo que [Raposo] se apresentava ao assistente na "humilde condição" de professora do Ensino Básico, e em vias de aposentação, mantinha uma suite e um escritório no hotel (...), contactos com pessoas alegadamente proeminentes na finança mundial (entre eles um tal Z, que prestava "serviços financeiros" a partir de Miami, e um Cardeal [sic] Ortodoxo, responsável de uma sociedade financeira)".

A Relação corroborou a sentença da primeira instância, notando que o artigo de opinião contribuiu para "a formação" de "juízo crítico".

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009



No Público de sexta-feira foi publicado este cartoon que ilustra os resultados do combate à corrupção em Portugal. Um dos três casos referidos, será aquele que foi descrito aqui.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Fingir que se quer combater a corrupção?

O CDS-PP continua a alinhar com o PS na recusa em aprovar leis que dão meios para um maior combate à corrupção.
Para contrapôr, vai propor criação do "estatuto do arrependido" para os crimes ligados à corrupção e o endurecimento das penas naquele tipo de crimes.

Vejamos, o estatuto de arrependido é algo que permite diminuir uma pena a quem colabora com a justiça. Se em Portugal, continua a não haver ninguém em prisão efectiva por ter sido condenado por corrupção, de que ajuda este estatuto?

Propõe também o aumento de penas para alguns crimes: "não faz sentido que um crime de suborno seja punido com dois anos de prisão".
Mas há alguém condenado por suborno em Portugal? Então, de que serve aumentar penas se não chega a existir condenação?


De que serve aumentar penas e jogar com estas, se o problema está, primeiro, na falta de condenações?

Pode-se concordar com estas medidas, mas estão claramente longe do centro do problema.

Ver notícia:
http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1437990

Corrupção sim, precipitação não!

Em 2006, João Cravinho, então deputado do PS, apresentou no Parlamento várias medidas para prevenir e combater a corrupção.

Aceitou abandoná-las e ir embora - em troca foi administrar o Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento (BERD), em Londres.
Em 2007, deu uma entrevista à Visão em que disse:
Foi dos maiores choques da minha vida ver que aquela matéria causava um profundo mal-estar, era como um corpo estranho no corpo ético do PS. Apesar de algumas dificuldades que antevia, não contava com uma atitude de absoluta incompreensão para a natureza real do fenómeno da corrupção.


Hoje, o PS vai votar contra os projectos do Bloco de Esquerda para criminalizar o enriquecimento ilícito e para levantamento do sigilo bancário no combate à fraude.

Deverá também votar contra projectos para alterar o Código Penal em matéria de corrupção e para consagrar a cativação pública das mais-valias Urbanísticas para prevenir a corrupção e o abuso do poder.

Os socialistas vão acusar os bloquistas de “precipitação”


Pelo menos desde 2006 que o PS anda a evitar legislar alguma coisa que possa ter algum efeito prático positivo contra a corrupção, para não se precipitar.

Se não é ser corrupto, parece pelo menos demonstrar uma grande conivência com a corrupção. Pela (in)acção politica, demonstra muito mais a sua atitude face à corrupção, do que em quaisquer escuta que seja feita.

Continua a haver só uma forma de alterar isto. Com pressão das pessoas.

domingo, 29 de novembro de 2009

A história de Isaltino

Faltava nestes arquivos o caso de Isaltino Morais.

Entre 1993 e Março de 2002, o actual presidente da Câmara de Oeiras depositou cerca de 1,32 milhões de euros em numerário em contas na UBS, valores que transferiu em 2003 para as contas da irmã e do sobrinho. A desconfiança do Ministério Público baseou-se no facto de Isaltino ter ganho no mesmo período de tempo cerca de 350 mil euros enquanto autarca e ministro.

Isaltino Morais deve ser o único caso de condenação a prisão efectiva por corrupção em Portugal - para além de participação económica em negócio, branqueamento de capitais, abuso de poder e fraude fiscal.

No entanto, continua em liberdade.
Chegará o dia que Portugal terá alguém condenado e preso por corrupção?Isaltino disse que as contas na Suíça eram do sobrinho

Eis a história completa de Isaltino aqui:

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Cronologia de um golpe

Eis um excelente texto sobre um aparente caso de tráfico de influências, de controlo de instituições financeiras e meios de comunicação social.

Parece que as consequências para o autor foram imediatas.
"Pedro Lomba: “A propósito do que li aqui e aqui, confirmo que publiquei esta crónica no Público a 12 de Novembro, quinta-feira e na segunda-feira da semana seguinte, dia 16 de Novembro, a 2 horas de entregar o meu texto pronto para ser publicado na edição de terça do Diário Económico, como sempre fiz desde o princípio de 2008, fui contactado pelo editor de opinião do jornal informando-me de que a minha colaboração era dispensada. Não obstante ter escrito imediatamente ao director do Diário Económico manifestando a minha surpresa por ter sido dispensado sem uma explicação no próprio dia em que iria entregar um artigo, não recebi qualquer resposta.”

sábado, 21 de novembro de 2009

Condenações ajudam a progredir na carreira?

Promover, na administração pública, pessoas para cargos que não têm competências ou quando claramente não têm a conduta exigida, tem que ser punido.
Têm que haver critérios e justificações para as decisões.


Vejam este caso, em que nem quatro condenações, duas delas por crime de abuso de confiança fiscal, impedem (será que até ajudaram?) de se ser promovido na administração fiscal:

"
Face Oculta
Chefe do fisco que ajudava Godinho foi promovido por três directores-gerais
19.11.2009 - 07h47
Por João Ramos de Almeida
Ao longo de dez anos, três directores-gerais de Impostos aceitaram promoções e transferências entre postos de chefia do chefe das Finanças de São João da Madeira, recentemente suspenso pelo tribunal de Aveiro na sequência da operação Face Oculta.

Essas decisões foram tomadas, apesar dos avisos do director distrital de Finanças de Aveiro e mesmo depois de quatro condenações judiciais, duas delas por crime de abuso de confiança fiscal.

Quando, em finais da década de 90, Mário Sousa Pinho era adjunto da repartição de Finanças de Ovar e se candidatou a chefe, responsáveis tributários de Aveiro avisaram Lisboa que aquele adjunto não reunia as condições exigidas. Dois quadros tributários ouvidos pelo PÚBLICO recordam-se desses avisos.
(...)
"

Notícia completa em:
http://economia.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1410469

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Basta?

"O julgamento em que o deputado António Preto é arguido, está a ser posto em causa por um erro com uma vírgula na morada de uma empresa, cometido pela Direcção Geral de Contribuições e Impostos."

Publicado no Expresso desta semana.
Não conheço mais pormenores.

Mas esta é apenas mais uma notícia que me fazem partilhar o sentimento de Miguel Sousa Tavares, também publicado na mesma edição do Expresso:

"(...) o país que trabalha, que estuda, que inova, que arrisca e que dá trabalho a outros; o país que não foge ao fisco nem tem offshores e que paga impostos até por respirar; que não enriquece na bolsa nem vive a mendigar subsídios do Estado; que paga a escola dos filhos, as suas despesas de saúde e o seu plano de reforma, nada esperando da Segurança Social; o país que tem pudor em fazer negócios escuros com as autarquias ou as empresas públicas; o país que ainda não apanhou um avião para o exílio mas que também não deseja um lugar nos aviões das suas visitas de Estado a Angola, esse país está a ficar farto.""


Vai sendo tempo de dizer BASTA!. Se se conseguem juntar 100 mil professores contra um modelo de avaliação, o que é necessário para juntar os portugueses contra o clima de impunidade permanente?

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Conselho de Prevenção da Corrupção (CPC)

Existe um organismo do Estado chamado "Conselho de Prevenção da Corrupção (CPC)". Há uns meses anunciou um estudo sobre a Administração Pública onde concluiu aquilo que se sabe e que se constata pelos casos aqui relatados:
"falhas que vão desde a atribuição de benefícios públicos sem fundamentar a decisão ou especificar os termos em que quem recebe deve prosseguir a sua actividade e eventuais sanções de que pode ser alvo em caso de incumprimento."

Fala também de "corrupção e de favoritismo injustificado".

Foram questionadas mais de 700 entidade públicas.

Perguntas
Há alguma consequência deste estudo? A recomendação da "elaboração e implementação de adequado planos de prevenção" é seguida por alguma dessas 700 entidades? É especificado o que é um "adequado plano de prevenção"?

Vale a pena existir o "Conselho de Prevenção da Corrupção (CPC)", para além de dar emprego a algumas pessoas e para permitir ao Estado poder afirmar que está a lutar contra a corrupção e que até criou um organismo para o efeito?

Esperemos que sim. Mas é isto que tem que ser perguntado e exigido aos governantes: consequências e medidas concretas. Porque pagar estudos para constatar o que todos sabem sem mais consequências, não vale a pena.

Notícia sobre o estudo em:

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

A corrupção não existe em Portugal...

... olhando para as prisões ou para as entrevistas feitas a responsáveis políticos.

Na entrevista na passada semana a José Sócrates, as perguntas de Júdite de Sousa dividiram-se entre:
  • As já inúmeras vezes repetidas com respostas que se sabem - sobre os professores, sobre a relação com o presidente da República, sobre o Freeport (perguntada em tom de quem pede desculpa por o fazer), etc.
  • E as totalmente irrelevantes - se vai apoiar Cavaco em 2011, o que acha de ser considerado sexy, etc.

Não se ouviu uma única vez as palavras corrupção e tráfico de influências ou se perguntou o que Sócrates acha do acordo entre o actual e um anterior ministro das obras públicas do PS, agora presidente da Mota Engil, ter sido considerado ruinoso para o Estado pelo próprio Tribunal de Contas?

Ou, pegando nas próprias palavras de Sócrates a afirmar que confiava na justiça, não se perguntou porque motivo não havia ninguém em Portugal condenado e em prisão efectiva por corrupção ou tráfico de influências? É por os nossos políticos e agentes económicos serem de uma honestidade muita acima de quaisquer outros cidadãos, portugueses ou estrangeiros? Se não o são, então o que propõe para alterar o actual clima de impunidade?

Perguntas que dada a actual situação e o sentimento da maioria do povo português, qualquer jornalista razoável faria, em vez de repetir perguntas e questionar sobre banalidades e intrigas políticas.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Imunidade a multas

Um caso já com alguns anos e de aparente menor importância, mas que reflecte o sentimento de impunidade que parte da classe política possui.
O deputado Ricardo Almeida, tinha sido autuado, até 2006, 18 vezes, relativamente ao trânsito automóvel, como por exemplo por circular a 200 quilómetros por hora. Quase todos os processos foram arquivados.
Ricardo Almeida afirmou-se surpreendido com o "histórico" de infracções e disse não se lembrar de ter sido autuado tantas vezes. "Reconheço que às vezes ultrapasso os limites de velocidade, mas isso é porque sou um deputado que cumpre horários. Não sou como outros que não chegam a horas às reuniões".
Para além da patética justificação, transparece claramente que ele sabia que as multas iam ser arquivadas. Ninguém persiste em infracções graves e muito graves se souber que haverá consequências.
O auto relativo ao excesso de mais de 200 km/h estava no Governo Civil de Coimbra, ao qual Ricardo Almeida juntou um pedido especial no sentido de lhe ser perdoada a apreensão da carta de condução.
O então governador civil de Coimbra, Henrique Fernandes, garantiu ao JN que não perdoará multas a ninguém, "independentemente do seu estatuto".
O que se terá passado? Terá efectivamente o deputado ter sido condenado, ou a frase do governador civil foi mais uma daquelas que fica bem na altura, sabendo que o assunto acabará por cair no esquecimento?Foi feita alguma investigação a como é possível tantas multas terem sido arquivadas? Os responsáveis por isso de alguma forma foram penalizados?
Continuamos a ter um deputado ou quem sabe noutro cargo público que justifica as suas transgressões por ter a qualidade rara de cumprir horários?

Este texto, foi escrito com base nesta notícia:http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1248640&idCanal=

Após uma posterior investigação, eis algumas respostas:
O deputado apenas pagou duas multas por mau estacionamento.
O governador civil de Coimbra efectivamente perdoou a infracção muito grave ao deputado! Reler a afirmação do primeiro, acima transcrita, em caso de dúvida.Notícia aqui:
http://diario.iol.pt/noticia.html?id=653387&div_id=4071

Sobre o que faz actualmente Ricardo Almeida? Continua deputado e é conselheiro nacional do PSD.
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1394812&idCanal=12

sábado, 8 de agosto de 2009

Lista de deputados do PSD: a passividade face à corrupção continua

A lista de deputados do PSD inclui Helena Lopes da Costa, cuja actividade na Câmara de Lisboa foi sucintamente descrita aqui.
O próprio Marcelo Rebelo de Sousa comenta: "PSD. António Preto e Helena Lopes da Costa, elegíveis para o Parlamento, por Lisboa. Ambos acusados, e não apenas arguidos, em processo-crime? (...) " (texto completo)
Pacheco Pereira é o cabeça de lista do PSD por Santarém. Escreveu, semanas antes da divulgação das listas: "renovar significa escolher pessoas que mostrem ter uma intransigência grande com a corrupção. Não basta serem honestas e sérias, o que muita gente é na política. É preciso ir mais longe, dada a natureza do meio e das suas tentações, é preciso não pactuar com quem seja menos honesto."
Não está ele a pactuar com quem seja menos honesto, integrando a mesma lista de deputados?

É assim que a Manuela Ferreira Leite ouve os portugueses e faz a "política da verdade"?

Vamos continuar a ter os dois maiores partidos coniventes ou passivos com a corrupção até quando?

Textos publicados até ao momento

  • Taguspark - parte 2
  • Propostas concretas: quem pega nelas?
  • Abaixo de zero no combate à corrupção
  • A amizade vale ouro
  • Taguspark, ou o que fazem administradores de empresas públicas
  • As regras que fazemos são para os outros
  • "Gama espera medidas concretas de combate à corrupção até Junho"
  • Ricardo Rodrigues, o rosto do PS de combate à corrupção
  • Fingir que se quer combater a corrupção?
  • Corrupção sim, precipitação não!
  • A história de Isaltino
  • Cronologia de um golpe
  • Condenações ajudam a progredir na carreira?
  • Conselho de Prevenção da Corrupção (CPC)
  • A corrupção não existe em Portugal
  • Imunidade a multas
  • Lista de deputados do PSD: a passividade face à corrupção continua
  • Negócio ruinoso para o Estado, negócio milionário para outros
  • Direitos de deputados ou privilégios de quem legisla para si próprio?
  • Acumulação de salários
  • Opinião
  • Iniciativa positiva pela transparência em Portugal
  • Gebalis: 5 milhões de euros pagos por nós para três pessoas os gastarem em uso pessoal?
  • Condenação
  • ? Qualificações: saber fotocopiar e ter um irmão deputado. Salário: 20 mil euros mensais ?
  • O combate à corrupção em Portugal
  • Reais rendimentos vs Salários declarados
  • Nomeações para a Galp
  • Competências relavantes para o cargo: amigo e do partido do Governo
  • Estado paga a advogados para defender pessoas que o Estado acusa de terem usado indevidamente dinheiro do Estado
  • Missão da acção social da Câmara de Lisboa: dar casa a quem não precisa, para além de já lhes pagar o salário
  • A corrupção, mesmo quando provada e condenada, compensa
  • 1999, Viagens fantasma
  • Manifesto